Algum
dia de 2015. Na Avenida Paulista, uma manifestação contra o governo brasileiro
pede por impedimento da Presidente. Com
palavras de ordem ora agressivas, ora
irônicas, muitas delas preconceituosas, os
manifestantes, destacando-se dentre os mais entusiasmados representantes da
classe média/alta paulistana, reagem ameaçadoramente contra qualquer um que de alguma maneira pareça representar algo ou alguém
que se oponha às suas bandeiras verde e amarelas assaltadas dos símbolos
nacionais para ilustrar suas intolerâncias. Nem mesmo aqueles que nada têm a
opor, por se postarem à margem literal da sociedade, escapam: Um grupo
acerca-se de um mendigo que repousa sob uma marquise e sobre ele deitam
cartazes de ataque a políticos do Partido dos Trabalhadores, sob muitas fotos
de seus celulares. Em outro ponto, um outro mendigo ,
este deficiente físico, é coberto com cartazes feitos a mão pelos
manifestantes, ofensivos a si. O que
pretendiam simbolizar ali aqueles manifestantes?
Relacionando diretamente atores políticos que querem afastados, presos ou mesmo
mortos, com aqueles mendigos? Considerariam que a forma ideal de acabar com a
miséria é exterminar os miseráveis? A começar acabando com algum resquício de
amor próprio, de dignidade que aquelas marquises paulistanas poderiam abrigar, perpetrando humilhações às suas vitimas?
Seria assim um contraponto ao que o governo que tentavam derrubar representava
para os pobres, ainda que para aqueles não representasse
muita coisa?
A uma
Via Dutra inteira dali uma manifestação idêntica acontece na Zona Sul carioca.
No bairro do Leblon alguém registra um casal levando seus dois filhos para os
protestos, e os mendigos encostados pelos rodapés das portas de lojas de grife
fechadas naquele domingo não escapam do olhar curioso das crianças. Já seus
pais mantém o olhar firme em direção ao local da concentração, ignorando
completamente a pobreza que chamou a atenção dos seus meninos.
A
humilhação é a gargalhada da barbárie. A barbárie latente dorme em cada barriga
balançante daqueles manifestantes paulistas. O
mendigo paulistano poderia repetir Marley: “Them Belly Full but we hungry”,
para aquelas barrigas brancas e perpetuadoras da exploração humana. Mas não
adiantaria: A fome alheia não os sensibiliza. Eles a humilham.
Ignorar
quem o incomoda, fazer o indesejado “deixar de existir” é a ignorância da
barbárie. Os pais daquelas crianças cariocas um dia conseguirão, finalmente,
apagar os ímpetos instintivos de olhares
humanos sobre outro humano. Ainda que de
infantil curiosidade, mas um olhar. A fuga desse olhar é o aval da fome, da
violência.
Quando,
em “Educação após Aschwitz”, Theodor Adorno sustenta que o holocausto dos
campos de concentração nazista deve ser prevenido na primeira infância, através
da educação, penso na não negação do olhar, teorizo a prioridade do
fortalecimento da socialização da escola, a quebra de nichos e exclusividades,
a aproximação das realidades, a reprodução do mundo não da forma identificada
por Bourdieu, nas diferenças culturais refletidas no rendimento escolar, mas no
avivamento do olhar mútuo. A liga de identificação entre os indivíduos, onde
cada um se veja no próximo e tenha a medida exata do que seria a dor em si que
se impinge ao outro.
Ainda em
sua obra, Adorno ressalta o espanto pelo fato de que Auschwitz aconteceu e mesmo diante de tamanha brutalidade a indignação da
humanidade parece ter-se amortecido bem
rápido. Como as ideias de um grupo se impuseram de maneira tão feroz sobre todo
um povo, o levando a uma guerra e ao extermínio de milhões de pessoas por
motivação racial? Esse questionamento não foi
suficientemente debatido.
O
amortecimento das sensações de defesa, que começam pelo medo, pela dor, mais se faz quanto mais a violência é banalizada.
O ato violento é uma decisão rápida, conclusiva, que teme os meandros do
pensamento, da elaboração. Obedecer é melhor que entender. Crer é mais fácil
que questionar. Os milhões de jovens alemães que se colocaram a soldo do maior genocídio
da história da humanidade o fizeram a serviço da elaboração da mente de um cabo
austríaco fracassado na guerra. Essa elaboração buscou na dor da vergonha da
derrota na Primeira Guerra a motivação para o orgulho brandido em bandeiras da
suástica sobre fuzis, e os inimigos e culpados foram apontados e seu extermínio
ordenado. Quantas dúvidas pairaram sobre
tantos jovens que se viram nessa missão? Quantos não tinham a
consciência de que as ordem eram abjetas e contra
os princípios das suas vidas e do próprio exército? Quanto a isso, vale
ressaltar que as Forças Alemãs não eram absolutas no apoio ao Fuhrer, mas na sua tradição de ferrenha disciplina, se
mantiveram firmes na obediência às
determinações expansionistas de Hitler. O serviço sujo, as perseguições, o extermínio ficavam a cargo da SS, a guarda nazista
ideologicamente formada para tal fim, onde da mesma forma pontificavam os
sádicos gestores conduzindo uma horda de cegos seguidores.
O
totalitarismo permeia a história e as relações humanas, desde as mais simples
até as mais complexas sociedades. O apego ao autoritarismo, pelo autoritário, é
inerente à sua natureza, e quanto mais ele se instrumentaliza intelectual e
fisicamente para exercê-lo, mais peso tem sua “autoridade”. Já seus “subordinados”
seguidores ideológicos refletem aquela submissão calcada na simplicidade de
pensamento ou ausência dessa virtude humana que nos separa dos demais animais.
É mais fácil matar do que educar. É mais fácil perseguir e limitar as
liberdades individuais quando não consigo aceitá-las
do que transportar as considerações acerca do assunto do campo dos dogmas
religiosos (esses eternos avalistas do senso comum) para o debate dos direitos civis.
Quando hoje vemos nas redes sociais muitos jovens
manifestando seus apoios a um candidato militar de extrema direita que
homenageia a tortura, mesmo depois de um período em que a Faculdade ampliou seu
alcance a esses jovens-e investigando constatamos que muitos deles são
universitários e beneficiários dessa mesma ampliação – nos perguntamos o que
está acontecendo. Já quando buscamos na História
os perfis dos golpistas de hoje, encontramos
os mesmos de sempre, com variações: Os grandes capitalistas e as grandes redes
de comunicação acrescidos de reforços religiosos: Se em sessenta e quatro foi a
igreja católica, hoje há a bancada parlamentar
evangélica. O elemento emulador e
gestor do golpe de ontem era o detentor da
força: O Exército. Hoje, um convenio entre um judiciário aparelhado e um
congresso vergonhoso cometem outro ataque à constituição. O Governo urdido de
um golpe parlamentar tem como primeiras ações exatamente atacar ou ameaçar
conquistas nos planos sociais no que se refere a liberdades individuais, na
desconstrução de pensamento inclusivo e não segregador.
Preparam medidas que tolhem a discussão científica, ameaçam amordaçar professores limitando sua atuação.
A
barbárie franze a testa para atestar sua presença quando vê as conquistas das
mulheres, da comunidade LGBT, dos negros, dos pobres. A barbárie quer a solução
final, não quer discussão, não quer inteligência. Ela quer somente o monocórdio
simplista que possa determinar ações igualmente simplistas e desprovidas de
qualquer reflexão pelos seus cegos agentes. A barbárie ofende nossas esperanças
quando se manifesta na ignorância dos lugares e sensos comuns, nas frases
feitas, nas mistificações, estigmatizações e preconceitos. Reparemos que nada
disso se relaciona com o pensamento, com a pesquisa, com o debate. A barbárie
nos abate a cada jovem linchado na rua, a cada negro morto pelos capitães do
mato modernos.
Ainda
voltando a Adorno, na visão do filósofo, uma quantificação da violência que
arrasou os judeus em Auschwitz já foi suficientemente indigna. Pois essa é a
forma com que planos de segurança são elaborados, com que policiais são
promovidos, com que delegacias são abertas. O número de mortos, os índices do ibope na comoção alcançada pelas
ocorrências e uma torcida vibrando por
uma numeração cada vez mais favorável nessa verdadeira guerra travada nas
cidades. Essa é a indústria da guerra urbana.
Por
outro lado, quando vemos hoje os estudantes retomando as bandeiras das lutas
políticas, ocupando os espaços públicos com criticidade e atitude, vemos um
belo golpe na barbárie. Quando um Ministério da Cultura é ocupado por quase
dois meses por manifestantes que conseguem reverter sua extinção, e ainda
assim, não arredam pé até que o golpe seja revertido, a barbárie leva outra
pancada. São ações de resistência.
E aqui
nos perguntamos: O desprezo pela discussão da cultura, pelas características
do povo de um país calcadas exatamente nas diversidades
culturais; a ojeriza pelo tônus investigativo
da ciência social, pela busca do entendimento das nossas diferentes formas de
expressão, pelas diversas abordagens desses tons, a quem interessa? A quem
interessa o senso comum de criminalização
generalizante e desinformada de processos de financiamento cultural? Quem sustenta a visão
de que artistas e fazedores culturais são vagabundos? A barbárie, sempre rediviva, pode responder através um dos seus maiores nomes, que queimou
livros e crianças,quebrou cristais e famílias,
e foi um dos mentores de Auschwitz. Sua frase, uma das muitas que compõem o ideário da estupidez humana, é bem clara: “Quando
ouço falar em cultura, saco o meu revolver” –Joseph Goebbels
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