sexta-feira, 2 de setembro de 2016

A BARBÁRIE! Trabalho para a disciplina "Filosofia da Educação", do Curso de Pedagogia, primeiro período (2016) - Professor Juliano Niklevics



Algum dia de 2015. Na Avenida Paulista, uma manifestação contra o governo brasileiro pede por impedimento da Presidente. Com palavras de ordem ora agressivas, ora irônicas, muitas delas preconceituosas, os manifestantes, destacando-se dentre os mais entusiasmados representantes da classe média/alta paulistana, reagem ameaçadoramente contra qualquer um que de alguma maneira pareça representar algo ou alguém que se oponha às suas bandeiras verde e amarelas assaltadas dos símbolos nacionais para ilustrar suas intolerâncias. Nem mesmo aqueles que nada têm a opor, por se postarem à margem literal da sociedade, escapam: Um grupo acerca-se de um mendigo que repousa sob uma marquise e sobre ele deitam cartazes de ataque a políticos do Partido dos Trabalhadores, sob muitas fotos de seus celulares. Em outro ponto, um outro mendigo , este deficiente físico, é coberto com cartazes feitos a mão pelos manifestantes, ofensivos a si.  O que pretendiam simbolizar ali aqueles manifestantes? Relacionando diretamente atores políticos que querem afastados, presos ou mesmo mortos, com aqueles mendigos? Considerariam que a forma ideal de acabar com a miséria é exterminar os miseráveis? A começar acabando com algum resquício de amor próprio, de dignidade que aquelas marquises paulistanas poderiam abrigar, perpetrando humilhações às suas vitimas? Seria assim um contraponto ao que o governo que tentavam derrubar representava para os pobres, ainda que para aqueles não representasse muita coisa?

A uma Via Dutra inteira dali uma manifestação idêntica acontece na Zona Sul carioca. No bairro do Leblon alguém registra um casal levando seus dois filhos para os protestos, e os mendigos encostados pelos rodapés das portas de lojas de grife fechadas naquele domingo não escapam do olhar curioso das crianças. Já seus pais mantém o olhar firme em direção ao local da concentração, ignorando completamente a pobreza que chamou a atenção dos seus meninos. 

A humilhação é a gargalhada da barbárie. A barbárie latente dorme em cada barriga balançante daqueles manifestantes paulistas. O mendigo paulistano poderia repetir Marley: “Them Belly Full but we hungry”, para aquelas barrigas brancas e perpetuadoras da exploração humana. Mas não adiantaria: A fome alheia não os sensibiliza. Eles a humilham.

Ignorar quem o incomoda, fazer o indesejado “deixar de existir” é a ignorância da barbárie. Os pais daquelas crianças cariocas um dia conseguirão, finalmente, apagar os ímpetos instintivos de olhares humanos sobre outro humano. Ainda que de infantil curiosidade, mas um olhar. A fuga desse olhar é o aval da fome, da violência.

Quando, em “Educação após Aschwitz”, Theodor Adorno sustenta que o holocausto dos campos de concentração nazista deve ser prevenido na primeira infância, através da educação, penso na não negação do olhar, teorizo a prioridade do fortalecimento da socialização da escola, a quebra de nichos e exclusividades, a aproximação das realidades, a reprodução do mundo não da forma identificada por Bourdieu, nas diferenças culturais refletidas no rendimento escolar, mas no avivamento do olhar mútuo. A liga de identificação entre os indivíduos, onde cada um se veja no próximo e tenha a medida exata do que seria a dor em si que se impinge ao outro.

Ainda em sua obra, Adorno ressalta o espanto pelo fato de que Auschwitz aconteceu e mesmo diante de tamanha brutalidade a indignação da humanidade  parece ter-se amortecido bem rápido. Como as ideias de um grupo se impuseram de maneira tão feroz sobre todo um povo, o levando a uma guerra e ao extermínio de milhões de pessoas por motivação racial? Esse questionamento não foi suficientemente debatido.

O amortecimento das sensações de defesa, que começam pelo medo, pela dor, mais se faz quanto mais a violência é banalizada. O ato violento é uma decisão rápida, conclusiva, que teme os meandros do pensamento, da elaboração. Obedecer é melhor que entender. Crer é mais fácil que questionar. Os milhões de jovens alemães que se colocaram a soldo do maior genocídio da história da humanidade o fizeram a serviço da elaboração da mente de um cabo austríaco fracassado na guerra. Essa elaboração buscou na dor da vergonha da derrota na Primeira Guerra a motivação para o orgulho brandido em bandeiras da suástica sobre fuzis, e os inimigos e culpados foram apontados e seu extermínio ordenado. Quantas dúvidas pairaram sobre  tantos jovens que se viram nessa missão? Quantos não tinham a consciência de que as ordem eram abjetas e contra os princípios das suas vidas e do próprio exército? Quanto a isso, vale ressaltar que as Forças Alemãs não eram absolutas no apoio ao Fuhrer, mas na sua tradição de ferrenha disciplina, se mantiveram firmes na obediência às determinações expansionistas de Hitler. O serviço sujo, as perseguições, o extermínio ficavam a cargo da SS, a guarda nazista ideologicamente formada para tal fim, onde da mesma forma pontificavam os sádicos gestores conduzindo uma horda de cegos seguidores.

O totalitarismo permeia a história e as relações humanas, desde as mais simples até as mais complexas sociedades. O apego ao autoritarismo, pelo autoritário, é inerente à sua natureza, e quanto mais ele se instrumentaliza intelectual e fisicamente para exercê-lo, mais peso tem sua “autoridade”. Já seus “subordinados” seguidores ideológicos refletem aquela submissão calcada na simplicidade de pensamento ou ausência dessa virtude humana que nos separa dos demais animais. É mais fácil matar do que educar. É mais fácil perseguir e limitar as liberdades individuais quando não consigo aceitá-las do que transportar as considerações acerca do assunto do campo dos dogmas religiosos (esses eternos avalistas do senso comum) para o debate dos direitos civis.

Quando hoje vemos nas redes sociais muitos jovens manifestando seus apoios a um candidato militar de extrema direita que homenageia a tortura, mesmo depois de um período em que a Faculdade ampliou seu alcance a esses jovens-e investigando constatamos que muitos deles são universitários e beneficiários dessa mesma ampliação – nos perguntamos o que está acontecendo. Já quando buscamos na História os perfis dos golpistas de hoje, encontramos os mesmos de sempre, com variações: Os grandes capitalistas e as grandes redes de comunicação acrescidos de reforços religiosos: Se em sessenta e quatro foi a igreja católica, hoje há a bancada parlamentar evangélica.  O elemento emulador e gestor do golpe de ontem era o detentor da força: O Exército. Hoje, um convenio entre um judiciário aparelhado e um congresso vergonhoso cometem outro ataque à constituição. O Governo urdido de um golpe parlamentar tem como primeiras ações exatamente atacar ou ameaçar conquistas nos planos sociais no que se refere a liberdades individuais, na desconstrução de pensamento inclusivo e não segregador. Preparam medidas que tolhem a discussão científica, ameaçam amordaçar   professores limitando sua atuação.

A barbárie franze a testa para atestar sua presença quando vê as conquistas das mulheres, da comunidade LGBT, dos negros, dos pobres. A barbárie quer a solução final, não quer discussão, não quer inteligência. Ela quer somente o monocórdio simplista que possa determinar ações igualmente simplistas e desprovidas de qualquer reflexão pelos seus cegos agentes. A barbárie ofende nossas esperanças quando se manifesta na ignorância dos lugares e sensos comuns, nas frases feitas, nas mistificações, estigmatizações e preconceitos. Reparemos que nada disso se relaciona com o pensamento, com a pesquisa, com o debate. A barbárie nos abate a cada jovem linchado na rua, a cada negro morto pelos capitães do mato modernos.

Ainda voltando a Adorno, na visão do filósofo, uma quantificação da violência que arrasou os judeus em Auschwitz já foi suficientemente indigna. Pois essa é a forma com que planos de segurança são elaborados, com que policiais são promovidos, com que delegacias são abertas. O número de mortos, os índices  do ibope na comoção alcançada pelas ocorrências e uma  torcida vibrando por uma numeração cada vez mais favorável nessa verdadeira guerra travada nas cidades. Essa é a indústria da guerra urbana.

Por outro lado, quando vemos hoje os estudantes retomando as bandeiras das lutas políticas, ocupando os espaços públicos com criticidade e atitude, vemos um belo golpe na barbárie. Quando um Ministério da Cultura é ocupado por quase dois meses por manifestantes que conseguem reverter sua extinção, e ainda assim, não arredam pé até que o golpe seja revertido, a barbárie leva outra pancada. São ações de resistência.

E aqui nos perguntamos: O desprezo pela discussão da cultura, pelas características do  povo de um país  calcadas exatamente nas diversidades culturais; a ojeriza pelo tônus investigativo da ciência social, pela busca do entendimento das nossas diferentes formas de expressão, pelas diversas abordagens desses tons, a quem interessa? A quem interessa o senso comum de criminalização generalizante e desinformada de processos de  financiamento cultural? Quem sustenta a visão de que artistas e fazedores culturais são vagabundos? A barbárie, sempre rediviva, pode responder através um dos seus maiores nomes, que queimou livros e crianças,quebrou cristais e famílias, e foi um dos mentores de Auschwitz. Sua frase, uma das muitas que compõem o ideário da estupidez humana, é bem clara: “Quando ouço falar em cultura, saco o meu revolver” –Joseph Goebbels












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