A Salvador
do final dos anos 60 respirava os ares pesados da ditadura militar que
contraditoriamente pairavam numa atmosfera colorida de renovação cultural da
tropicália de Caetano, Gil e Gal. Todo mundo queria ver Irene rir, sem lenço e
sem documento, apesar do general tirano da ocasião. Eu era o “caçula” dos oito filhos dos
professores Ruth Ana e Sá Teles. Ela, formada no Educandários dos Perdões, não
mais lecionava, mas trabalhava na administração escolar na rede pública da
Cidade Baixa. Ele, professor universitário de pedagogia, era assessor técnico e
professor de administração educacional na Inspetoria Seccional na Delegacia
Regional do MEC. Tendo alguns anos antes exercido seu único mandato eletivo, de
deputado estadual, o Professor Sá Teles tinha com a companheira Ruth aquela
parceria que une características diferentes, onde a doçura abranda o
racionalismo, onde um equilibra o outro.
Na casa de dois
andares na Rua da Imperatriz, no bairro industrial de Itapagipe, Cidade Baixa
de Salvador, oito filhos conviviam ruidosamente e eu, o mais novo, recebia as
influências culturais que moldaram minha formação e personalidade. Se do pai
Professor eu podia contar com a generosa biblioteca onde clássicos da filosofia
(que, confesso, nunca li) se misturavam à literatura infantil que me tomava as
horas envolto no mundo de fábulas e lendas de uma extensa coleção “Fábulas,
Lendas e Mitos Populares”- onde Esopo e La Fontaine, Lobato e lendas indígenas
regiam o meu imaginário -, de Dona Ruth eu bebia as experiências contadas e
cantadas na sua voz afinada pelo acordeom da minha irmã Josete, a primeira dos
filhos do casal, e que me levava ao cinema, pelos discos de “Jovem Guarda” de
José, pelo violão de Toinho, o Teatro de Raimundo, e o gosto pelo desenho de
Ana Ruth. Com Rose e Gaia eu disputava as revistas Disney e da recém-chegada
“Turma da Mônica”. A leitura realmente era um dos meus passatempos prediletos. Muitas
vezes o gosto pela leitura era tanto que atrapalhava o estudo formal, quantas
foram as situações em que ocultei publicações de minha preferência no interior
dos livros escolares que fingia estar lendo...Mas, por outro lado, ainda que
fugisse dos rudimentos de matemática e gramática que me eram exigidos, desenvolvia
o gosto pelas redações, onde sempre obtinha as minhas melhores notas.
Eu estudava
pela manhã, na Escola da Professora Conchita, ex aluna de meu pai, e me
deslocava até lá de ônibus, levado por um dos irmãos ou por minha mãe. Era uma
escola simples, mas bem organizada, com um corpo docente de professoras,
exclusivamente. Meus colegas eram todos da mesma região, não exatamente
vizinhos, cujos pais predominantemente eram operários das fábricas do bairro,
ou militares. Meus irmãos mais velhos estudaram, em épocas distintas, em Escolas
Públicas e minhas irmãs, todas, no Colégio São José, exclusivamente feminino.
Depois do
terceiro ano “primário”, veio a mudança da família para Brasília, por motivos
profissionais do meu pai e sentimentais de toda família: Toinho, meu mano do violão,
se fora, prematuramente, aos 17 anos.
Na Capital
Federal, 4º ano “primário”, ingressei numa das unidades das “Escolas-Classe”
componentes do sistema educacional projetado para Brasília por Anísio Teixeira,
com quem meu pai trabalhara no início da sua carreira. Foi a primeira escola
pública em que estudei, a “Escola Classe 107”, localizada na Superquadra do
mesmo número, que, junto com a “Escola Parque”, compunha o sistema educacional
público para as crianças e jovens da área. Pela manhã, na Escola Parque,
estudávamos artes industriais, artes plásticas, música, teatro, fazíamos
protótipos de jornal, e tínhamos aulas de educação física com natação, jogos de
quadra e campo de futebol. Eu saía meio dia da Escola Parque, ia para casa,
almoçava, e às 14 estava perfilado para cantar uma das músicas escolhidas pela
severa Dona Lydia, diretora da Escola Classe 107, para as turmas que começavam
mais uma tarde de aula. A gaúcha Lydia encarnava perfeitamente o rigor militar
da época, mas hoje reconheço ali um coração devotado ao que fazia.
Esses foram
tempos muito importantes para mim, momento sobre o qual minha memória registra
muitas características que me formaram. Eu era um aluno muito conversador,
tagarela, criativo, um tanto disperso, talvez por ter interesses intelectuais
sob o signo de uma certa rebeldia. Meus pais, mais pela personalidade do que pela
formação especializada em educação, sempre foram bastante generosos,
compreensivos comigo e harmoniosos com os professores, dando-lhes o suporte da
autoridade em sala. Tive problemas de indisciplina, que poderiam suscitar uma
reação talvez mais incisiva de meus pais, por verem um filho de educadores se
portando exatamente como os educadores não querem, mas exatamente por o serem,
assimilavam a compreensão por uma juventude questionadora, mas que preservava
valores fortes de verdadeiro respeito e solidariedade. Das professoras, ainda
exclusivas na minha formação até então, a paciência da Edna, que com muito
carinho e determinação tentava me fazer compreender a até hoje para mim incompreensível
matemática, e a ousadia e confiança da Walderez Caetano, professora de educação
física que, também jornalista, me incumbiu de fazer a cobertura da visita do
Secretário de Educação à Escola Parque. Eu fiz e ela publicou no “Correio
Braziliense” (“com a colaboração de”...) as linhas onde registrei a passagem do
secretário pela escola. Dos colegas, alguns encontro até hoje. Normalmente o
que nos ligava eram gostos comuns, principalmente pela música, essa arte que
faz parte da minha vida, como Reginaldo-cuja irmã Rita tinha uma coleção
magnifica de discos de Rock - e Luiz
Otávio, de uma família onde o gosto
musical contemplava Jobim, Caymmi, João Gilberto, e da qual despontou uma
grande cantora de hoje: a então “irmãzinha mais nova do meu amigo”, Zélia
Duncan.
Eu posso
dizer que fui privilegiado nessa época, por ter estudado no então ainda
resistente sistema educacional pensado
por Anísio Teixeira, mas que depois viria a ser minado pela obtusidade do
regime militar e a falta de visão dos governos seguintes. Na Escola Parque eu
participei dos meus primeiros festivais, estive pela primeira vez num palco,
toquei, cantei, compus, assisti filmes, tinha uma biblioteca maravilhosa,
arejada, que eu devorava.
Na Escola
Classe as atividades curriculares obrigatórias eram secundadas por atividades
cívicas impostas pelo regime militar, que permanecia como algo um tanto
distante da minha compreensão. Hoje, curiosamente, lembro que dividia a sala de
aula tanto com Calixto, filho do zelador do prédio vizinho, como com Henrique,
neto do então Vice-Presidente, o general Adalberto Pereira dos Santos. Haveria
democracia inclusiva em plena ditadura?
Meus anos
seguintes, tendo que deixar minhas queridas Escola Parque e Escola Classe não
foram muito entusiasmantes. A sétima e a oitava série do “primeiro grau”, no “Ginásio
do Setor Oeste” deixaram para trás as atividades culturais intensas vividas até
então, resumindo-se a uma ou outra interpretação teatral na apresentação de
trabalhos. No ambiente familiar também, a dispersão com os primeiros casamentos
dos irmãos, que se afastavam naturalmente da convivência, e principalmente a
mudança para a Vila Planalto, que se por um lado me reaproximava do meu gosto
pela natureza, me propiciando pescarias no Lago Paranoá e passeios
desbravadores no cerrado com meu cão, por outro me afastava geograficamente do
Plano Piloto, onde as interações culturais e sociais eram mais intensas, para
um já adolescente que tanto precisava disso. Nos tempos de Escolas Classe e
Parque, minha família morava na SQS 109, uma das quadras mais movimentadas
culturalmente da capital, e a proximidade das escolas me permitia fazer o
percurso a pé. A mudança para a “Vila” foi impactante na perda dessa autonomia.
Então veio o
“segundo grau”. Entusiasmado com o projeto, e, sob influência de amigos, pedi
aos meus pais o ingresso no CETEB, uma escola tecnicista de prestígio na época:
todo mundo queria estudar “processamento de dados”, “eletrônica”, como formação
técnica na segunda metade dos anos setenta. O CETEB era um projeto misto, uma
espécie de parceria público/privada de então. Era muito interessante sob a
perspectiva do ensino de física e química, por dispor de equipamentos que
propiciavam comprovações e testes, demonstrando na aplicação o porquê das
fórmulas matemáticas que eu tanto repelia, sob uma didática “auto-instrutiva”
onde o aluno definia o ritmo do seu aprendizado. Claro que isso viria a
resultar para mim numa formação bastante precária sob o ponto de vista do
exigente vestibular da UNB, onde a CESPE já anulava uma questão certa a cada
questão errada. Fiz os dois primeiros anos do segundo grau no CETEB e,
trabalhando no Banco do Brasil, pedi transferência para o Colégio Planalto, que
tinha um ensino mais voltado para o Vestibular, estudando à noite devido ao
trabalho.
Como
antecipei, as tentativas de ingresso no Curso escolhido na UNB, Comunicação
Social, foram infrutíferas. O gosto pela leitura e pela escrita não foram
suficientes para me garantir um lugar na universidade pública naquela época.
Anos depois fiz vestibular para cursar Estudos Sociais no CEUB, faculdade
privada, e fui mais bem sucedido. Cursei durante alguns meses, mas não dei
continuidade aos estudos: minha vida já se dividia entre o trabalho no Banco do
Brasil e a profissão de músico.
Hoje vejo
que tive toda a liberdade de fazer minhas escolhas. O fracasso escolar dentro
do cronograma que se se espera para a trajetória de um jovem me acompanhou
durante todo esse tempo. Se alguém teve alguma influência nisso, fui eu mesmo.
Meus pais sempre me deram todas as oportunidades, apesar das dificuldades.
Trinta e
três anos depois, uma nova etapa da vida e uma resposta bastante precisa para
definir quem foi determinante no meu reingresso na faculdade: credito à minha
namorada e aos meus filhos o estímulo para que eu voltasse a estudar. Ela,
formada em matemática na UFPE, sempre me estimulou e estimula, injetando
confiança e positividade à minha motivação. Eles, estudantes, sendo o mais
velho graduado na PUC em Relações Internacionais via PROUNI, ora fazendo
mestrado na UFF, e o mais novo, que fez a mesma prova do ENEM que eu, e cursa
jogos de computador no IFRJ, em Paulo de Frontim. Sempre me motivaram e me
devolveram o orgulho e felicidade que tive pela trajetória escolar deles com estímulo
à minha retomada. Também a forma de
acesso ao ensino superior proporcionada pelo ENEM/SISU que eu considero bem
mais democrática que a severa UNB dos anos 70, que deixou de formar um jovem jornalista
por causa de matemática, química, física...
Essa
democratização de oportunidades eu vejo hoje na diversidade de perfis sócio
econômicos da minha turma de pedagogia na UFRJ. A UNB do meu tempo de jovem era
acessível a quem poderia pagar cursinhos caros como Anglo e Objetivo. O perfil
predominante era branco de classe média alta. Eu tinha acesso aos mesmos
recursos de formação pré-vestibular que esse perfil, embora a ele não pertencesse,
mas os motivos do meu fracasso de então são os que expus.
A minha
profissão de músico, adquirida na prática, viria a me legar muitas interações
culturais, viagens, descobertas. Apesar da insegurança econômica e da
instabilidade e sazonalidade nas oportunidades de trabalho, me proporcionou e
proporciona o prazer da troca dos sentidos, de ser artífice de sensações
sonoras e, assim, ter a gratificação de provocar emoções nas pessoas.
Finalizando,
concluo que os fatores determinantes na nossa trajetória podem perpassar toda
uma vida. E podem ressurgir renovados, nos devolvendo motivação, aspirações e
coragem. Sempre há tempo.